out 16 2008

Aquecimento global pode difundir doenças letais, diz ONG

Doze doenças, incluindo febre amarela, gripe aviária, cólera e peste, podem se beneficiar da mudança.
 
BARCELONA – Doze doenças letais devem ganhar uma difusão maior no mundo por causa das mudanças climáticas, alertou a Sociedade de Conservação da Vida Selvagem na terça-feira.
 
A entidade com sede em Nova York e atuação em 60 nações disse que é preciso monitorar melhora a vida selvagem para que seja possível detectar prematuramente a forma de propagação dos agentes patogênicos nas novas condições climáticas.
 
As doze doenças citadas no estudo são: gripe aviária, babesiose transmitida por carrapatos, cólera, ebola, parasitas, peste, doença de Lyme, maré vermelha (por contaminação de algas), febre do vale do Rift, doença do sono, tuberculose e febre amarela.
 
"Mesmo distúrbios menores podem ter consequências abrangentes sobre quais doenças poderiam encontrar e transmitir conforme o clima mudar", disse Steven Sanderson, diretor da entidade.
 
"O termo ‘mudança climática’ evoca imagens de calotas de gelo derretendo e níveis do mar aumentando para ameaçar cidades e nações costeiras, mas tão importante quanto isso é como o aumento das temperaturas e a flutuação dos níveis de precipitação vão alterar a distribuição de agentes patogênicos perigosos", disse ele.
 
"Monitorar a saúde da vida selvagem vai nos ajudar a prever onde esses pontos de perturbação vão ocorrer e planejar como nos preparar", disse ele em nota.
 
O Painel Climático da ONU diz que as emissões de gases do efeito estufa, principalmente pela queima de combustíveis fósseis, estão elevando a temperatura, com consequências como secas, ondas de calor e derretimento de geleiras.
 
"Durante milênios as pessoas souberam de uma relação entre saúde e clima", disse William Karesh, membro da entidade, durante entrevista coletiva em Barcelona por ocasião do lançamento de um relatório que está sendo lançado no congresso da União Internacional para a Conservação da Natureza.
 
Segundo ele, o estudo não é uma lista exaustiva, e sim uma ilustração da variedade de doenças infecciosas que podem ameaçar humanos e animais.
 
 
 
 
set 16 2008

Especialista vê exagero em vacinação contra febre amarela

Luiz Hildebrando Pereira da Silva entende que não deveria haver imunização contra a doença em áreas urbanas
 
Fabiane Leite
 
Um dos maiores especialistas em doenças tropicais no mundo, o médico Luiz Hildebrando Pereira da Silva diz que o governo pode ter exagerado ao estender a recomendação de vacinação contra a febre amarela para além de áreas de matas, conforme instrução divulgada pelo Ministério da Saúde brasileiro. A recomendação do governo abrange também áreas urbanas. A vacina traz riscos, destaca, e deve ser administrada com cuidado.

Segundo o ministério, entre 2000 e 2007, as doses da vacina distribuídas são 500% maior que a população que vive em áreas de risco (35 milhões de pessoas). Apenas neste mês, a distribuição já chegou a 7 milhões de doses, mais da metade de tudo o que foi repassado aos Estados em 2007.

Não se pode fazer vacinação preventiva de população de uma área só porque apareceram casos em pessoas que invadiram área de floresta ou passaram dias em ecoturismo. Isso não coloca em perigo a população das áreas que não estão com esse mesmo tipo de comportamento e, na minha maneira de ver, foi um erro estratégico do Ministério da Saúde”, afirmou Silva, diretor do Instituto de Pesquisas em Patologias Tropicais de Rondônia. “Não haveria a necessidade disso”.

Em férias na França, onde trabalhou por mais de 30 anos no Instituto Pasteur, Silva tem conversado com representantes do ministério. “Eu me informei e técnicos dão explicações de que às vezes são obrigados a atender a certas necessidades extremamente improváveis por questões de ordem psicológica, para mostrar que o ministério é capaz, para garantir tranqüilidade às pessoas.”

Até ontem, 31 pessoas já tinham apresentado reações adversas à vacina, principalmente em razão do recebimento de mais de uma dose em curto espaço de tempo, admitiu o ministério. “É exatamente esta uma das razões de não se poder usar a vacina sistemática”, afirma o especialista. Foi identificada até mesmo uma pessoa que recebe a vacina há quatro anos sistematicamente.

A instrução do ministério diz que vacina só deve ser tomada por pessoas que ainda não tenham sido imunizadas ou que tenham sido há mais de dez anos e que vivam ou se dirijam para áreas de risco – atualmente, a maior parte do País, exceto grande extensão da costa brasileira.

Silva reconhece que o governo teme a expansão da doença para áreas urbanas, o que não ocorre desde 1942, e tem procurado criar barreiras para a ameaça ao estender a imunização para além das matas, mas frisa que não há motivos para tanta preocupação.

“O Ministério da Saúde é plenamente capacitado para bloquear qualquer epidemia de febre amarela na cidade. O mosquito que se infecta não voa nem 5 km e as pessoas infectadas não transmitem a doença por toda a vida. Tenho a impressão de que há pânico e a imprensa precisa contribuir para dizer que não há risco de epidemia”, afirmou ainda.

PREOCUPAÇÃO

O diretor de Vigilância Epidemiológica do ministério, Eduardo Hage, disse que um comitê de especialistas reconheceu como corretas as orientações do ministério sobre vacinação, mas também já se preocupava com o risco de revacinações, pois entendia que, além dos efeitos adversos, poderia trazer desperdício e prejuízo a quem realmente necessita da imunização. “Estavam preocupados porque as revacinações criam um problema maior para as pessoas que vão viajar para essas áreas e podem não conseguir se vacinar.”

A pasta não tem como saber se a maior parte das pessoas que vai aos postos de imunização já foi vacinada, pois a maior demanda é de adultos, que não costumam guardar cartões de vacinação. O ministério também não tem hoje meios legais para exigir os cartões, nem para impedir sob qualquer alegação que uma pessoa se vacine na rede de saúde pública.

Segundo dados de cobertura vacinal disponíveis no site do ministério, até 2004 a maioria das regiões de risco já tinha cobertura de 100% – a pasta não informou os dados mais recentes do País, apesar de solicitação feita pela reportagem na quinta-feira.

“A cobertura do País é ótima, mas pela primeira vez houve a divulgação de caso de febre amarela no Distrito Federal, as pessoas ficaram apavoradas”, analisa o infectologista José Geraldo Leite Ribeiro, que assessora o governo de Minas Gerais. “Há um problema grave no setor de comunicação social dos setores de saúde, que não consegue transmitir a informação necessária.” Para ele, um exemplo disso são os próprios mapas sobre as áreas de risco de febre amarela divulgados, que não são estariam claros para a população. “Minas aparece como área endêmica recente, para quem não é especializado pode parecer que não há muito risco. Não parto do princípio de pôr a culpa em quem não entendeu.”

Ribeiro destaca ainda que educar especificamente viajantes é um desafio no mundo. “Não é culpa da população, é uma questão cultural, difícil.” A maioria dos casos de morte registrados até o momento é de viajantes, não de residentes. O Ministério da Saúde confirmou ontem mais uma morte. Agora são 12 casos neste ano, sendo que 8 pacientes morreram. Ainda há 7 casos suspeitos e 14 já descartados. Na semana passada, o ministro da Saúde, José Temporão, disse que todas as vítimas da doença tinham as informações necessárias e sabiam que deveriam se vacinar.

“Essa situação é oportuna porque a doença é um problema sobre o qual a população tem de se instruir, saber que vai ocorrer com maior freqüência porque é resultado da expansão de populações, invasão de florestas”, afirma Silva. “É preciso conduzir medidas preventivas, a organização de um serviço de saúde mais estruturado e não entrar em pânico. Não se pode vacinar a população de maneira abstrata.”