Category: Helicobacter Pylori

set 15 2008

Helicobacter Pylori (HP) – O Grande Vilão das Gastrites

Em nossa civilização há uma tendência cada vez maior de se desenvolverem doenças no tubo digestivo, tendo em vista o estresse pela competitividade, a vida nas grandes cidades, a violência, o trânsito nas capitais, e pela própria alimentação. Hoje são numerosos os quiosques de comidas e refrigerantes espalhados por todos os cantos das cidades, e as lanchonetes e pizzarias instalados nos shoppings e nas regiões de grande afluxo da população.
 
"É claro que me refiro ao hábito crônico de tomar refeições às pressas, muito temperadas e com muito sal", diz o Dr. Adilson Savi, professor e patologista do Hospital Semper, de Belo Horizonte, que comenta ainda "que isto já seria o bastante para o desenvolvimento de gastrites, úlceras gástricas e duodenais e, a longo prazo, também câncer".
 
O especialista explica que há poucos anos foi descoberta uma bactéria, hoje conhecida como Helicobacter pylori (HP), nome final que lhe foi dado em 1989. As pesquisas sobre essa bactéria não param de ser produzidas, tal a importância que veio adquirir como agente causador das gastrites e da úlcera gástrica. Essa bactéria é encontrada em todo o mundo, infectando pessoas de todas as idades, sobretudo as de baixo nível sócio-econômico e pouca higiene, podendo ser transmitida das mães para os filhos.
 
A crianças são particularmente sensíveis à infecção pelo HP. Ele pode ser transmitido pela água e de pessoa para pessoa, havendo provas indiretas dessa transmissão pela presença do microorganismo entre os gastroenterologistas, entre os residentes dos asilos e das creches, orfanatos, em famílias inteiras e até nas tripulações de submarinos. A prevalência da infecção aumenta à taxa de 1% ao ano na população em geral. Sabe-se que nos países industrializados, em torno de 50% a 60% das pessoas, com mais de 60 anos, estão infectados.
 
O Dr. Adilson Savi enfatiza que a prevalência é maior nos países muito desenvolvidos, chegando a 75% de indivíduos contaminados em torno dos 25 anos de idade. As pessoas negras são aparentemente mais susceptíveis.
 
A bactéria resiste aos tratamentos com muita freqüência e pode permanecer em reserva nas placas dentárias, por exemplo, vindo a reinfectar o indivíduo uma vez cessado o tratamento. A bactéria é facilmente identificada pelos métodos laboratoriais, sobretudo na superfície das células da mucosa gástrica às quais se adere, e pode ser observada em colorações de rotina ou por colorações especiais, como o Giemsa, por sais de prata, pelo Gram e pela Carbol-Fucsina. À microscopia eletrônica mostra-se com flagelos em um dos pólos. Sua grande capacidade metabólica a faz produzir várias enzimas, que lesam as superfícies das células, desestabilizando o epitélio e a barreira protetora de muco, facilitando a ação de outros agentes como ácido clorídrico e a pepsina, explica.
 
O organismo reage à bactéria como neutrófilos migrantes pelo epitélio em exocitose, acumulando-se nas luzes glandulares do estômago, formando abscessos. Os neutrófilos também liberam enzimas que se somam aos agentes anteriores para a lise das células. Fragilizando as ligações intercelulares, o HP penetra os espaços entre as células e gera uma resposta inflamatória – a gastrite. Há uma resposta imunológica que (por azar) pode ser cruzada e agredir as células da mucosa gástrica e levar a uma gastrite autoimune. Dessa maneira o HP tem um papel muito importante no desenvolvimento de graves doenças gástricas, desde a gastrite aguda, crônica, crônica ativa, gastrite folicular, atrófica, ulcera gástrica e duodenal, adenocarcinoma e linfoma gástricos.
 
O aparecimento da gastrite, úlcera ou câncer depende da cepa do HP, da sua virulência, da susceptibilidade do paciente e da interação bactéria/portador. A possibilidade da produção de oxidantes pode alterar os genes das células epiteliais, gerar mutações e originar câncer. Assim, a descoberta dessa bactéria veio solucionar um problema antigo da gastroentrerologia, já que sua erradicação (com uso associado de antibióticos e drogas de ação local) permite ao portador uma vida saudável, sem as dores e os incômodos das doenças que o HP produz.
 
Procurar um médico é uma solução mais inteligente do que fazer automedicação, por exemplo, de antiácidos paliativos. "Os recursos da medicina atual permitem com toda facilidade diagnosticar a condição, identificar o HP e com o tratamento adequado erradicá-lo", ratifica o médico.

Fonte: BoaSAÚDE

set 15 2008

Helicobacter Pylori

O Helicobacter pylori (Hp) é uma bactéria que vive no muco que cobre a superfície do estômago e, foi identificada, por dois australianos, Warren e Marshall, em 1983. (Warren e Marshall, por este motivo, receberam o prémio Nobel da Medicina em 2005). A maior parte da população infectada com o H. pylori permanece saudável, sem sintomas e não necessita de tratamento. Apenas uma minoria desenvolve uma doença clínica.
 
O H. pylori tem uma distribuição irregular a nível mundial sendo a prevalência muito mais frequente nos países em vias de desenvolvimento. Portugal comporta-se como um país em desenvolvimento, com prevalência muito superior, aos outros países, do mundo desenvolvido.

A gastrite provocada pelo Helicobacter pylori é das infecções mais frequente no mundo, atingindo mais de 50% da população mundial. Cerca de 90% dos portugueses adultos têm gastrite causada pelo H. pylori mas apenas atinge 20% dos Escandinavos. Em 2006 é rara nas crianças dinamarquesas em idade escolar – <2%. A incidência do  Helicobacter pylori diminui com a melhoria das condições sanitárias.
 
 
Como nos infectamos?
 
A infecção dá-se geralmente na infância por transmissão oral-oral ou fecal-oral. Ainda não conhecemos totalmente como se faz essa transmissão. Mas sabemos que grande parte das crianças portugueses antes dos 5 anos de idade já estão infectadas.

Mais de 50 % das crianças portuguesas com 8 anos de idade já estão infectadas e depois dos 50 anos de idade mais de 90% dos portugueses estão infectados. Num estudo realizado no Norte de Portugal encontrou-se uma prevalência global de 79,1%. Quase 100% da população adulta da América do Sul e da África está infectada. Nos países desenvolvidos a prevalência ronda os 30 – 40%, metade da prevalência que encontramos no nosso país. 
 
Onde vive o Helicobacter pylori?
 
O H. pylori, vive no muco, que cobre a mucosa do estômago e do duodeno, protegendo-se do efeito agressivo do ácido clorídrico normalmente produzido no estômago. 
 
Quais as alterações provocadas, no estômago, pelo Helicobacter pylori?
 
Mais de 80 % dos infectados com H. pylori nunca terá sintomas relacionados com esta bactéria nem necessitará de tratamento.
  1. Inicialmente o H. pylori provoca gastrite aguda que, em poucos dias, se transforma em gastrite crónica.
  2. Esta gastrite crónica raramente será causa de sintomas. Mais de 95% das pessoas com queixas do estômago que fazem tratamento para eliminar o helicobacter continuam com os mesmos sintomas depois do tratamento.
  3. Cerca de 10-15% dos infectados progridem para doença ulcerosa ( úlcera do estômago ou úlcera do duodeno ) e há provas evidentes que a maior parte das úlceras curam definitivamente se o H. pylori for erradicado.
  4. Existe uma relação entre o H. pylori e alguns cancros do estômago ( adenocarcinoma e linfoma MALT ). A erradicação do H. pylori no intuito da prevenção do cancro do estômago é uma expectativa que infelizmente, os estudos feitos não têm confirmado. 
As diferentes evoluções para úlcera ou para cancro (adenocarcinoma ou linfoma MALT) são atribuídas à susceptibilidade de cada pessoa, à virulência da estirpe da bactéria, à idade da aquisição da infecção, a factores genéticos, a factores ambientais e possivelmente a outros factores que desconhecemos. Viver assustados porque temos H. pylori e podemos vir um dia a ter cancro do estômago é que não tem qualquer justificação. Quase todos os portugueses têm H. pylori  mas muito poucos terão cancro do estômago.
 
Mais de 90% dos Africanos têm H. pylori e o cancro de estômago entre eles, quase não existe. Para que apareça o cancro no estômago, outros fatores, são necessários, além do H. pylori.
 
Como sabemos se estamos infectados?
 
Há várias maneiras de sabermos se estamos infectados. Durante a endoscopia do estômago o médico pode retirar um fragmento do estômago e fazer um teste rápido ou, pedir ao patologista para pesquisar a bactéria no fragmento de biopsia colhido. Existe um teste respiratório de fácil execução e que não exige endoscopia. No sangue pode pesquisar-se os anticorpos anti-Helicobacter pylori. Este é um bom teste para sabermos se já estivemos infectados mas, os anticorpos permanecem cerca de 1 ano positivos depois de a bactéria ser erradicada: a bactéria pode já não existir mas continua a haver anticorpos, o teste continua positivo.
 
Testes que exigem endoscopia:
  • Teste rápido da urease ( CLOtest e outros )
  • Observação ao microscópio
  • Exame cultural
Testes que não exigem endoscopia
  • Teste respiratório
  • Pesquisa de anticorpos no sangue (embora de pouco valor na clínica, é infelizmente muito utilizado e é causa frequente de angustia para o doente. Não tem valor para verificar a eficácia da erradicação mas é, no entanto, útil em estudos epidemiológicos)

Como, em Portugal, quase todos os adultos estão infectados e, como quase 100% das úlceras do duodeno e cerca de 70% das úlceras do estômago estão relacionadas com o H. pylori, muitos médicos, quando diagnosticam uma úlcera fazem erradicação, sem mandarem realizar qualquer teste para pesquisar o H. pylori e, mandam fazer o teste respiratório depois do tratamento, para se certificarem se o tratamento foi eficaz e o Hp foi erradicado. 
 
É frequente as pessoas, com queixas atribuídas ao estômago fazerem uma análise ao sangue ( pesquisa de anticorpos ) para saberem se têm Helicobacter pylori. Do que fica dito é fácil deduzir que essa pesquisa raramente tem algum interesse: se a pessoa é positiva vai causar-lhe ansiedade desnecessária e em muitos casos vai provocar um tratamento inútil como se explica a seguir.
 
O tratamento ( erradicação ) é necessário?:
 
Quase todos os portugueses adultos estão infectados e seria impensável fazer a erradicação a todos, nem há motivos que justifiquem tal atitude. Com os conhecimentos que temos actualmente recomenda-se erradicar o Helicobacter pylori nos indivíduos que têm úlcera do estômago, úlcera do duodeno e linfoma MALT

A
úlcera do estômago e do duodeno pode cicatrizar definitivamente com a erradicação do H. pylori. Por isso falamos hoje em cura da úlcera. Alguns linfomas MALT curam com a erradicação do H. pylori
 
Há outras situações, para além da úlcera do estômago, úlcera do duodeno e do linfoma MALT,  em que a erradicação do H. pylori poderá, eventualmente, ser recomendada. O próprio individuo poderá querer que o médico lhe erradique o helicobacter e não há motivo para não satisfazer o seu desejo.
 
Erradicar o Helicobacter pylori só porque se tem queixas do estômago é uma atitude muito frequente, podemos dizer muitíssimo frequente,  mas poucos doentes beneficiam com essa atitude.  As queixas dispépticas, infelizmente continuam, raramente desaparecem depois de se fazer a erradicação, porque a causa das queixas e o tratamento é diferente:  ver Dispepsia Funcional.
 
Poderá um dia descobrir-se uma vacina contra o Hp?
 
Sem dúvida nenhuma que será possível mas, até hoje, ainda não se conseguiu. Uma vacinação em massa, na idade infantil, irá diminuir a prevalência do Cancro do Estômago, além de reduzir significativamente a prevalência da úlcera do estômago e duodeno.
 
Qual é o tratamento correto? Como se faz a erradicação do H. pylori?
 
Ainda não existe um tratamento ideal: que seja 100% eficaz, barato e simples de tomar. Presentemente os médicos prescrevem para erradicar o Helicobacter pylori, a associação dum anti-secretor, medicamento inibidor da secreção do estômago, com dois antibióticos, durante 7 dias. Chama-se a esta terapêutica, terapêutica tripla porque inclui 3 medicamentos:
  1. Anti-secretor
  2. Antibiótico
  3. Antibiótico
Como se pode verificar se o tratamento foi eficaz?
 
Em 70% – 80% dos casos o tratamento é eficaz. Quer isto dizer que em 20% a 30% dos doentes que fizeram tratamento, a bactéria, não é eliminada e, a recidiva da úlcera vai, muito provavelmente, acontecer nos dois anos imediatos. Se a úlcera voltar a aparecer deve fazer-se novo tratamento, utilizando uma associação de antibióticos diferente, ou fazendo terapêutica quádrupla: um anti-secretor e três antibióticos.
 
Na maior parte dos casos, depois do tratamento, o médico não manda fazer nenhum teste para se certificar de que a bactéria desapareceu mas, nas úlceras complicadas ( que sangraram ou que perfuraram ) ou se por curiosidade quisermos saber se continuamos ou não com a bactéria no estômago, o nosso médico pode escolher um de vários testes para se certificar se houve ou não erradicação. O melhor teste é o teste respiratório que não exige nova endoscopia mas custa cerca de 12.000$00 (há vários laboratórios no Algarve – Faro, Albufeira e talvez noutros locais – que se encarregam da execução deste teste). Os outros testes exigem nova endoscopia para se colher um fragmento do estômago. Qualquer dos testes só deve ser feito, pelo menos 2 semanas depois, de não utilizarmos nenhum anti-secretor nem antibiótico, caso contrário, podem aparecer falsos negativos ou seja, pode o teste ser negativo embora o Helicobacter continue no estômago.

Como os anticorpos continuam no sangue, pelo menos durante 1 ano, depois de o Helicobacter desaparecer, a pesquisa de anticorpos no sangue não tem valor para verificar o êxito do tratamento.

Fonte: Gastro Algarve – Gastrenterologia