Pessoas infelizes assistem mais TV, diz estudo
Segundo o ministério, entre 2000 e 2007, as doses da vacina distribuídas são 500% maior que a população que vive em áreas de risco (35 milhões de pessoas). Apenas neste mês, a distribuição já chegou a 7 milhões de doses, mais da metade de tudo o que foi repassado aos Estados em 2007.
“Não se pode fazer vacinação preventiva de população de uma área só porque apareceram casos em pessoas que invadiram área de floresta ou passaram dias em ecoturismo. Isso não coloca em perigo a população das áreas que não estão com esse mesmo tipo de comportamento e, na minha maneira de ver, foi um erro estratégico do Ministério da Saúde”, afirmou Silva, diretor do Instituto de Pesquisas em Patologias Tropicais de Rondônia. “Não haveria a necessidade disso”.
Em férias na França, onde trabalhou por mais de 30 anos no Instituto Pasteur, Silva tem conversado com representantes do ministério. “Eu me informei e técnicos dão explicações de que às vezes são obrigados a atender a certas necessidades extremamente improváveis por questões de ordem psicológica, para mostrar que o ministério é capaz, para garantir tranqüilidade às pessoas.”
Até ontem, 31 pessoas já tinham apresentado reações adversas à vacina, principalmente em razão do recebimento de mais de uma dose em curto espaço de tempo, admitiu o ministério. “É exatamente esta uma das razões de não se poder usar a vacina sistemática”, afirma o especialista. Foi identificada até mesmo uma pessoa que recebe a vacina há quatro anos sistematicamente.
A instrução do ministério diz que vacina só deve ser tomada por pessoas que ainda não tenham sido imunizadas ou que tenham sido há mais de dez anos e que vivam ou se dirijam para áreas de risco – atualmente, a maior parte do País, exceto grande extensão da costa brasileira.
Silva reconhece que o governo teme a expansão da doença para áreas urbanas, o que não ocorre desde 1942, e tem procurado criar barreiras para a ameaça ao estender a imunização para além das matas, mas frisa que não há motivos para tanta preocupação.
“O Ministério da Saúde é plenamente capacitado para bloquear qualquer epidemia de febre amarela na cidade. O mosquito que se infecta não voa nem 5 km e as pessoas infectadas não transmitem a doença por toda a vida. Tenho a impressão de que há pânico e a imprensa precisa contribuir para dizer que não há risco de epidemia”, afirmou ainda.
PREOCUPAÇÃO
O diretor de Vigilância Epidemiológica do ministério, Eduardo Hage, disse que um comitê de especialistas reconheceu como corretas as orientações do ministério sobre vacinação, mas também já se preocupava com o risco de revacinações, pois entendia que, além dos efeitos adversos, poderia trazer desperdício e prejuízo a quem realmente necessita da imunização. “Estavam preocupados porque as revacinações criam um problema maior para as pessoas que vão viajar para essas áreas e podem não conseguir se vacinar.”
A pasta não tem como saber se a maior parte das pessoas que vai aos postos de imunização já foi vacinada, pois a maior demanda é de adultos, que não costumam guardar cartões de vacinação. O ministério também não tem hoje meios legais para exigir os cartões, nem para impedir sob qualquer alegação que uma pessoa se vacine na rede de saúde pública.
Segundo dados de cobertura vacinal disponíveis no site do ministério, até 2004 a maioria das regiões de risco já tinha cobertura de 100% – a pasta não informou os dados mais recentes do País, apesar de solicitação feita pela reportagem na quinta-feira.
“A cobertura do País é ótima, mas pela primeira vez houve a divulgação de caso de febre amarela no Distrito Federal, as pessoas ficaram apavoradas”, analisa o infectologista José Geraldo Leite Ribeiro, que assessora o governo de Minas Gerais. “Há um problema grave no setor de comunicação social dos setores de saúde, que não consegue transmitir a informação necessária.” Para ele, um exemplo disso são os próprios mapas sobre as áreas de risco de febre amarela divulgados, que não são estariam claros para a população. “Minas aparece como área endêmica recente, para quem não é especializado pode parecer que não há muito risco. Não parto do princípio de pôr a culpa em quem não entendeu.”
Ribeiro destaca ainda que educar especificamente viajantes é um desafio no mundo. “Não é culpa da população, é uma questão cultural, difícil.” A maioria dos casos de morte registrados até o momento é de viajantes, não de residentes. O Ministério da Saúde confirmou ontem mais uma morte. Agora são 12 casos neste ano, sendo que 8 pacientes morreram. Ainda há 7 casos suspeitos e 14 já descartados. Na semana passada, o ministro da Saúde, José Temporão, disse que todas as vítimas da doença tinham as informações necessárias e sabiam que deveriam se vacinar.
“Essa situação é oportuna porque a doença é um problema sobre o qual a população tem de se instruir, saber que vai ocorrer com maior freqüência porque é resultado da expansão de populações, invasão de florestas”, afirma Silva. “É preciso conduzir medidas preventivas, a organização de um serviço de saúde mais estruturado e não entrar em pânico. Não se pode vacinar a população de maneira abstrata.”
Há vacina para os dois tipos da doença (veja o que é meningite no texto abaixo). Mas elas custam caro e não são distribuídas pelo governo. Nas clínicas particulares, a pneumocócica conjugada é vendida por cerca de R$ 220 e a meningocócica, por R$ 140. Estima-se que apenas 10% das crianças hoje sejam imunizadas contras essas doenças no País.
A inclusão da vacina no calendário oficial está longe dos planos do governo. “Os preços são ainda proibitivos para essas vacinas serem distribuídas em massa”, justifica Expedito Luna, diretor do Departamento de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde. “Se hoje todos os recém-nascidos recebessem a vacina contra a bactéria pneumococo, por exemplo, ao preço do mercado, eu gastaria mais com ela do que com todas as vacinas do nosso calendário juntas.”
Hoje, nascem 3,5 milhões de bebês no Brasil por ano. Como cada criança tem de receber pelo menos três doses da pneumocócica, pelo preço atual o governo gastaria em torno de R$ 2 bilhões anualmente. O Orçamento nacional para o Programa Nacional de Imunizações é de R$ 750 milhões.
Nos Estados Unidos, a vacina contra a bactéria pneumococo foi incorporada ao calendário oficial em 2000. No ano passado, o Centro de Controle de Doenças americano publicou os primeiros resultados depois da inclusão. O número de casos provocados pela bactéria pneumococo foi reduzido em 77% em bebês com menos de 1 ano, em 83% em crianças de 1 a 2 anos e 72% na faixa de 2 a 3 anos.
No Brasil, num dos Centros Educacionais Unificados (CEU), da zona Sul de São Paulo (a direção da escola pediu para não identificá-lo), só neste ano foram registrados três casos da pneumocócica. Um deles com morte.
“Não entendi nada, dei todas as vacinas no posto e ele morre de uma doença que tem vacina?”, conta Solange dos Santos, de 22 anos, mãe de Leonardo dos Santos, aluno do CEU e vítima da pneumocócica há um mês, aos 7 anos (veja texto abaixo). No posto de saúde, o menino foi imunizado contra a meningite causada pela bactéria Haemophilus influenza B (Hib), a única distribuída pelo governo. Com a vacinação em grande escala, o número de casos da Hib atualmente é mínimo, cerca de 30 por ano em São Paulo, por exemplo.
Depois da morte de Leonardo e os outros dois casos, os diretores da escola solicitaram à Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima uma vacinação em massa no CEU, o que não ocorreu. O governo até distribui a pneumocócica e a meningocócica conjugada, mas apenas para grupos de risco, como portadores de HIV, de doenças pulmonares crônicas ou para quem vai se submeter a transplantes.
O governo aplica uma vacina contra a meningocócica em surtos, mas de qualidade inferior à distribuída para grupos de risco e à vendida em clínicas particulares, a chamada meningocócica polissacarídica, ineficaz em crianças com menos de 2 anos de idade e com tempo de imunização limitado, de três a cinco anos.
Os SubtiposOs sorotipos B e C agem no organismo de forma muito parecida e têm sintomas semelhantes. No mercado, só há vacina contra o C, o tipo em maior número atualmente.
“A oscilação faz parte do ciclo natural da bactéria”, explica Marco Aurélio Sáfadi, pediatra e infectologista do Hospital São Luiz, em São Paulo, e professor de pediatria da Faculdade de Medicina da Santa Casa. “Mas ela certamente seria muito menor se a doença fosse combatida em massa.”
Fonte: Estadao.com.br :: VIDA &
Fonte: BoaSAÚDE
