out 21 2008

Naturalidade e Espontaneidade

O que todas as notícias desse blog indicam? Uma visão unilateral e pessimista do mundo? Opnião de uma pessoa prestes a se jogar da ponte?

Também não queremos que você, leitor, motivo de existirmos, corte os pulsos
 
Os objetivos deste site vão além de publicar meras notícias. Seria fácil demais sair coletando pela internet todas as notícias dessa classe…
 
A finalidade desse blog é justamente tocar cada leitor sobre a necessidade do desenvolvimento da relexão.
 
Apenas duvidar ou aceitar o que acontece ao nosso redor é muito facil porém não é o suficiente.
 
"Mas não é suficiente para que, tio Realito?" Bem, se você perguntou isso, deve ter o quociente de inteligência equivalente a de um chinelo…
 
Desenvolver a análise crítica e a reflexão profunda é muito importante, não apenas para conhecer o mundo em que andamos, mas principalmente para conhecer o mundo em que vivemos… "Sim Poliana… aqui dentro… dentro de nós".
 
Para isso precisamos re-aprender a agir e sentir com naturalidade e espontaneidade…. Por mais dificil que seja pronunciar essas palavras várias vezes, precisamos recordar esses sentidos que um dia tivemos quando éramos crianças.
 
Lendo o post do Magro, sobre naturalidade, vi algumas fotos de crianças… Essas sim são felizes… Mesmo nos piores momentos são mais felizes que os ‘adultos’ porque simplesmente vivem o que têm que viver… Não têm preocupações e apenas vivem o momento, o aqui e o agora
 
Para aqueles que não captaram a mensagem e ainda têm a visão de que as crianças são apenas bolinhas fofas e bobas, estão enganados, há muito que aprender com os pequenos… Não precisamos ser ‘bobos’, desprovidos de raciocínio, mas precisamos recobrar os puros sentimentos (lindo, não?) e a capacidade de exercer a realidade como eles! Viu, não precisamos fazer ‘gu-gu-da-da’ mem voltar a tomar mamadeira…
 
É mais simples do que isso… É agregar à inteligência, a capacidade de viver o momento, de usufruir da realidade
 
Mas não me pergunte como fazer isso…
 
Se quisermos exercer uma existência equivalente a de um gusano, tudo bem… O livre arbítrio também pode ser disperdicado assim… É respeitável e lamentável… Qualquer coisa, basta fechar o site (brincadeira, viva como um verme mas continue a nos visitar).
 
 
out 20 2008

Poluição causa alterações pulmonares em fetos, diz estudo

BERLIM - A poluição atmosférica fomenta alterações pulmonares no feto humano quando a mãe respira elevadas concentrações de partículas em suspensão, diz um estudo suíço apresentado nesta terça-feira, 7, em Berlim no âmbito de um congresso europeu sobre doenças pulmonares.
 
Até agora os cientistas afirmavam que a poluição só podia prejudicar os pulmões infantis em idade escolar.
 
Entretanto, um cientista da Universidade de Berna, na Suíça, investigou a relação entre a poluição atmosférica e os problemas pulmonares no caso de 241 recém-nascidos.
 
Philipp Latzin analisou as proporções de ozônio, de dióxido de nitrogênio (NO2) e de partículas em suspensão (PM10) que respiraram as grávidas e levou em conta a proximidade da casa das futuras mães de grandes vias.
 
Finalmente, e durante as cinco semanas posteriores ao nascimento, mediu a capacidade pulmonar dos recém-nascidos, para chegar à conclusão de que os filhos daquelas mães que tinham respirado ar com elevadas concentrações de partículas em suspensão mostravam alterações respiratórias.
 
Os filhos de mulheres que vivem perto de estradas com muito tráfego respirariam mais rápido, 48 vezes por minuto ao invés de 42.
 
O estudo conclui que os bebês, cujas mães respiraram ar muito contaminado durante o último terço da gravidez sofriam mais infecções nas vias respiratórias que os outros.
 
Latzin suspeita que a poluição atacaria os pulmões das mães, reduzindo a irrigação sanguínea que chega à placenta, onde acontece a troca de oxigênio e nutrientes entre a mãe e feto.
 
Outra hipótese indica que as partículas em suspensão se misturam no sangue do bebê, alterando seu ritmo respiratório.
 
A terceira hipótese apresentada por Latzin para explicar os danos pulmonares seria uma alteração no metabolismo da mãe, que frearia o crescimento do feto e a formação do pulmão infantil.
 
De qualquer forma, os cientistas consideram que os resultados do estudo demonstram que é necessário reduzir os poluentes do ar, já que "a influência adiantada sobre as vias respiratórias levam a um aumento das doenças pulmonares e uma menor esperança de vida", explicam o relatório.
 
out 16 2008

Aquecimento global pode difundir doenças letais, diz ONG

Doze doenças, incluindo febre amarela, gripe aviária, cólera e peste, podem se beneficiar da mudança.
 
BARCELONA – Doze doenças letais devem ganhar uma difusão maior no mundo por causa das mudanças climáticas, alertou a Sociedade de Conservação da Vida Selvagem na terça-feira.
 
A entidade com sede em Nova York e atuação em 60 nações disse que é preciso monitorar melhora a vida selvagem para que seja possível detectar prematuramente a forma de propagação dos agentes patogênicos nas novas condições climáticas.
 
As doze doenças citadas no estudo são: gripe aviária, babesiose transmitida por carrapatos, cólera, ebola, parasitas, peste, doença de Lyme, maré vermelha (por contaminação de algas), febre do vale do Rift, doença do sono, tuberculose e febre amarela.
 
"Mesmo distúrbios menores podem ter consequências abrangentes sobre quais doenças poderiam encontrar e transmitir conforme o clima mudar", disse Steven Sanderson, diretor da entidade.
 
"O termo ‘mudança climática’ evoca imagens de calotas de gelo derretendo e níveis do mar aumentando para ameaçar cidades e nações costeiras, mas tão importante quanto isso é como o aumento das temperaturas e a flutuação dos níveis de precipitação vão alterar a distribuição de agentes patogênicos perigosos", disse ele.
 
"Monitorar a saúde da vida selvagem vai nos ajudar a prever onde esses pontos de perturbação vão ocorrer e planejar como nos preparar", disse ele em nota.
 
O Painel Climático da ONU diz que as emissões de gases do efeito estufa, principalmente pela queima de combustíveis fósseis, estão elevando a temperatura, com consequências como secas, ondas de calor e derretimento de geleiras.
 
"Durante milênios as pessoas souberam de uma relação entre saúde e clima", disse William Karesh, membro da entidade, durante entrevista coletiva em Barcelona por ocasião do lançamento de um relatório que está sendo lançado no congresso da União Internacional para a Conservação da Natureza.
 
Segundo ele, o estudo não é uma lista exaustiva, e sim uma ilustração da variedade de doenças infecciosas que podem ameaçar humanos e animais.
 
 
 
 
out 14 2008

Médico explica os riscos do paracetamol e diz que não sabe por que remédio continua no mercado

Pesquisa divulgada pela revista científica New Scientist alerta sobre os riscos que o paracetamol traz para a saúde depois que foi divulgado que o analgésico se tornou a principal causa de insuficiência hepática nos Estados Unidos. O estudo mostra que a proporção de problemas no fígado causados pelo medicamento chegou a 51% do total em 2003. Em 1998, esta proporção era de 28%.
Os cientistas americanos responsáveis pelo estudo chegaram à conclusão de que 20 comprimidos de paracetamol por dia são suficientes para causar insuficiência hepática e levar à morte – a dose máxima recomendada é de oito.
 
Em entrevista ao UOL News, o toxicologista Anthony Wong, do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas, deu uma aula sobre o que se deve e o que não se deve fazer no uso do paracetamol, admitiu não saber por que o remédio ainda continua no mercado e explicou que a dosagem perigosa varia de pessoa para pessoa.
 
"A quantidade de comprimidos é altamente variável. Só aqui no Brasil tem comprimido de 750mg. Na Inglaterra só tem de 500mg e de 360mg. Nos Estados Unidos existem comprimidos de até 1g, mas isso ainda é muito restrito. Nos Estados Unidos, inclusive, já há restrições, com advertência de caixa preta, para que as pessoas não tomem paracetamol com bebida alcoólica. Se tomar mais de 3 doses de bebida alcoólica não pode tomar paracetamol."
 
Ainda sobre a dosagem, lembrou: "20 comprimidos é uma dose média, mas há pessoas que já tiveram falência hepática tomando 8 comprimidos de 500mg, que dá 4g. É importante salientar que a máxima diária são 4g de paracetamol, desde que não tenha álcool, problema hepático ou o paciente não esteja tomando um outro remédio."
 
Nada de paracetamol na ressaca
Ele contou que a velha prática de tomar um comprimido com paracetamol em dias de ressaca para combater a dor de cabeça deve ser completamente abolida da vida das pessoas. "É uma boa advertência para essa época de natal e ano novo. Não se pode tomar um porre e depois tomar paracetamol, pois pode causar lesão hepática fulminante mesmo em doses menores do que 20 comprimidos. Também não pode tomar aspirina, porque ela aumenta o sangramento gástrico."
 
Para Anthony Wong, a pesquisa vem numa boa hora. "É importante e muito bem-vindo o alerta, porque os americanos e principalmente os brasileiros tomam remédios como se fossem ‘M&Ms’. Não pode." Ele contou que nos Estados Unidos, além da morte causada por falência hepática, o paracetamol é a principal causa de morte por intoxicação de todos os remédios que existem no país."
 
"Então por quer ainda está no mercado?", perguntou a jornalista. "Nos Estados Unidos tem um forte trabalho de marketing em cima do FDA. Já na Europa há muitas restrições. Na Inglaterra, por exemplo, só se pode comprar uma caixa por mês."
 
Segundo o médico, febre muito alta, jejum prolongado ou vômito prolongado em crianças ou adultos são muito perigosos. "Isso esfolia a pessoa de radicais que são necessários para neutralizar o paracetamol."
 
O efeito no fígado
Segundo o médico, o efeito do paracetamol no fígado é tardio. "Depois de 12 horas a pessoa começa a sentir náuseas. Depois de 24 horas começa a ter dor de cabeça muito forte por causa da lesão do fígado. E aí não adianta dar nada, porque o antídoto só funciona, na melhor das hipóteses, antes de 24 horas. Depois disso é muito tarde."
 
Ele contou que há 3 anos saiu na Pediatrics um estudo alertando para esse efeito, dizendo que uma criança que tomou paracetamol e está vomitando poderia estar com overdose de paracetamol. "E tanto é verdade que muitos centros já aplicam um antídoto quando uma criança que tomou paracetamol é atendida e a mãe não sabe dizer qual foi a dose. Depois fazem a dosagem. Se for baixa, suspendem o antídoto."
 
O paracetamol e a febre
Anthony Wong lembrou que vários antigripais contêm paracetamol. Lillian pediu para o médico citar alguns nomes-fantasia para que as pessoas pudessem saber de que remédio estão falando. Citou como alguns exemplos Tylenol, Naldecon, Cheracap, Cedrin e Dimetap. "Quase todos os antigripais têm paracetamol e muito facilmente causam overdose."
 
O especialista explicou que não se deve nunca começar um tratamento de gripe com aspirina. "Motivo: existe uma doença chamada Síndrome de Reye, que causa a destruição fulminante do fígado se a pessoa tomar aspirina e tiver propensão genética de destruição maciça no fígado." Ele contou que essa advertência sobre o uso da aspirina foi feita no fim da década de 70, começo da década de 80.
 
"Quando saiu essa advertência, a incidência de Reye nos Estados Unidos era mais ou menos de mil casos por ano. Praticamente 95% das pessoas morriam. No Brasil não era muito menor. Depois da advertência, o número de casos caiu para 25 ao ano. Isso demonstra que existe uma associação causal com uso da aspirina."
 
Alternativas
O médico deu algumas alternativas ao paracetamol. "Tenho uma certa preferência pela dipirona (novalgina), mas o ibuprofeno (advil para adulto e alivium para criança), que está entrando agora no mercado, é bastante seguro." Wong lembrou que nem a aspirina nem o paracetamol podem ser ingeridos em casos de dengue. O primeiro porque causa sangramento e o segundo porque ataca o fígado.
 
Sobre reação anafilática, Wong explicou que independe do medicamento. "Pode acontecer com qualquer remédio, desde dipirona, pinicilina (o mais comum de causar alergia), ácido acetilsalicílico, até picada de abelha. A dica é: evite ao máximo tomar remédio. Se precisar, tome com cautela, com cuidado, mesmo que seja a 1/10 de vez que estiver tomando aquele remédio."
 
O paracetamol e a estatina
A jornalista Lillian Witte Fibe perguntou a ele se é perigoso misturar o paracetamol com a estatina, que é usada para o controle do colesterol. "Ainda não foi demonstrada uma associação entre os dois. Parece que atuam em lugares diferentes dentro da célula hepática. Sabemos que alguns antibióticos, como a rifampicina, usada para tuberculose, e também alguns antibióticos da linha do cipro podem se associar ao paracetamol e provocar uma lesão de fígado."
 
 

 

out 08 2008

Vai ter para todo mundo?

O preço dos alimentos disparou, e o aumento médio no mundo passa dos 80%. A crise atual, a pior dos últimos trinta anos, é um grito de alerta sobre uma questão que pouca gente ousa discutir: o planeta mal consegue alimentar 6,7 bilhões de bocas hoje. O que ocorrerá em 2050, quando seremos 9,2 bilhões de terráqueos? A comida será cara e rara como nunca.
 
André Petry, de Nova York
 
Se tudo der certo, na noite deste domingo, precisamente às 8h38, hora de Brasília, a sonda Phoenix vai pousar na região norte de Marte, um pedaço ainda não explorado do planeta vermelho. Sua missão será cavar a superfície em busca de água líquida e bactérias ou outros sinais que denunciem a possibilidade de existir vida em Marte. Na mesma hora, precisamente às 8h38 da noite, o número de crianças mortas no mesmo dia em todo o planeta Terra por causas relacionadas à fome terá chegado a 14.856. Só no domingo. A fórmula macabra é a seguinte: a cada cinco segundos morre uma criança no mundo em decorrência de problemas provocados pela carência de calorias e proteínas mínimas para a sobrevivência. É dramático que a humanidade, em meio a progressos estupendos como a capacidade de escavar o solo de outro planeta em busca de vida pregressa, ainda seja assombrada pelo fantasma da fome – que ceifa a vida presente e futura na Terra. O mais dramático é que, durante os dez meses em que a Phoenix rasgou o éter em direção a Marte, a situação aqui embaixo ficou ainda pior. O trigo, o milho, o leite, o açúcar, o ovo, o frango – tudo subiu. Em alguns casos, como o do arroz, esse cereal que alimenta metade dos habitantes do planeta, o preço dobrou em um ano. Pela primeira vez na história, o custo global de importar alimentos passará de 1 trilhão de dólares.
 
Filipina protesta com panela vazia: faltou dinheiro para a pesquisa do arroz - Luis Liwanag/AFPOs pobres do mundo estão inquietos. Na Somália, a polícia dispersa multidões famintas a tiros. Na Indonésia, com quase metade de seus 230 milhões de habitantes vivendo na pobreza, cada aumento de 10% no preço do arroz joga 2 milhões de pessoas na miséria absoluta. No Haiti, os preços altos derrubaram o governo. Na Malásia, país nem tão pobre assim, o governo andou balançando. No México, protestos de rua contra o preço das tortillas assustaram as autoridades. Na Tailândia, um dos celeiros de arroz do planeta, há mercados limitando a compra do produto por cliente. Na Argentina, assolada pelo populismo da presidente Cristina Kirchner, os panelaços voltaram a ser ouvidos, com produtores rurais reagindo contra medidas do governo e consumidores irritados com a escassez nos supermercados. Existem situações críticas no Paquistão, no Egito, no Senegal. Em Gana, Bangladesh, Mianmar. Há fome na Coréia do Norte, na Etiópia. No Brasil, o quadro é mais confortável, mas um pedaço da crise mundial chegou ao país, com o preço dos alimentos ultrapassando a média da inflação. No Palácio do Planalto, estuda-se aumentar em 5% o benefício concedido pelo Bolsa Família para compensar a alta nos preços.
 
"Estamos vivendo a pior crise dos últimos trinta anos", alarma-se o economista Jeffrey Sachs, professor da Universidade Colúmbia, em Nova York, e conselheiro especial de Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas (ONU). E não vai melhorar. Um relatório da FAO, a entidade da ONU que cuida dos alimentos e da agricultura no mundo, acabou de sair do forno em Roma, trazendo previsões sombrias. O documento, divulgado na quinta-feira passada, diz que os alimentos não voltarão a ser baratos como antes. A comida mais cara, portanto, chegou para ficar. É uma situação que deixa ainda mais vulneráveis 850 milhões de pessoas ao redor do planeta, uma massa cronicamente subnutrida que vive sempre sob o espectro da fome. Antes, uma análise elaborada por uma equipe do Banco Mundial já fazia previsões parecidas. Dizia que os preços ficarão altos até 2009, quando então começarão a cair. A queda, porém, não será acentuada, e os preços ficarão "bem acima" do nível registrado em 2004. O Banco Mundial calcula que a situação ficará como está, ameaçadora e preocupante, pelo menos até 2015. E em 2015 a população mundial terá cerca de 600 milhões de bocas a mais para alimentar. É o equivalente a quase três Brasis a mais. Vai dar?
 
Em 1798, o economista inglês Thomas Malthus previu que a humanidade se afundaria em guerras e doenças porque a fome reinaria no planeta. Seus cálculos indicavam que a produção de alimentos crescia em ritmo aritmético (1, 2, 3, 4…) e a população aumentava em ritmo geométrico (1, 2, 4, 8…). Malthus errou tudo. Em seu tempo, não tinha como prever a invenção dos fertilizantes, que fizeram disparar a produção de alimentos, ou dos contraceptivos, que permitiram planejar o tamanho das famílias em sociedades mais afluentes. Agora, no entanto, começa a ganhar fôlego no meio acadêmico a escola dos neomalthusianos. Eles acham que a armadilha agora é gente demais vivendo num meio ambiente degradado demais. Em 2050, prevê-se, seremos 9,2 bilhões de pessoas – ou 2,5 bilhões a mais do que hoje. Em seu último livro, Jeffrey Sachs arrasta uma asa para o neomalthusianismo e faz um apelo para que o total de habitantes não passe de 8 bilhões até 2050. Escreve Sachs: "A atual trajetória econômica, demográfica e ambiental do mundo é insustentável". Ele defende a "cooperação global" para salvar o planeta e superar "o paradoxo de uma economia global unificada e uma sociedade global dividida".
 
 
 
A crise atual decorre de uma combinação de causas: colheitas ruins, especulação de preços, aumento excepcional do barril de petróleo e a explosão dos biocombustíveis. Mas o que ajudará a perpetuar o problema é o aumento do consumo de alimentos, sobretudo na China e na Índia, as locomotivas asiáticas que, juntas, têm mais de um terço da população mundial. A China, em especial, tem peso fenomenal. Se cada chinês comer um frango a mais, dentro de cinco anos explodirá o mercado de milho, a ração básica da ave. "O frango é um milho com asa", brinca o professor Mauro de Rezende Lopes, economista da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro. "E, quanto maior o poder aquisitivo, mais carne as pessoas consomem." Com a economia crescendo a 10% e o consumo de calorias aumentando 20%, a China, essa terra onde aconteceram mais de 1 500 ondas de fome na era cristã, está formando uma imensa classe média – que quer comer carne. O problema é que, para cada quilo de carne que a vaca engorda, são necessários 8 quilos de grãos para alimentá-la. Considerando que boa parte é gordura e osso, a conta muda: para cada quilo de carne boa vão 13 quilos de grãos. É preciso produzir isso tudo.
 
"Temos de acreditar que seremos capazes de dar de comer a todos e tomar as providências necessárias", diz o estudioso David Orden, do International Food Policy Research Institute, em Washington, e professor da Universidade Virginia Polytechnic. As providências foram deixando de ser tomadas. Na década de 60, com a população crescendo mais que a produção de comida, uma crise se avizinhava, mas foi espantada pela "revolução verde", que multiplicou a produção de alimentos. Índia e Paquistão adotaram novas sementes, irrigação, fertilizantes. O processo foi capitaneado por um velhinho simpático, o agrônomo Norman Borlaug, que hoje, aos 94 anos, morando no Texas, ainda tenta trabalhar nos intervalos entre uma hospitalização e outra, sempre sob os cuidados de uma neta. Da revolução verde para cá, com comida farta e barata, investimentos foram sumindo e pesquisas, minguando. Países que não plantavam não se preocupavam em fazê-lo. Existia alimento de sobra. Há mais de duas décadas, o ministro americano da Agricultura, John Block, disse que a proposta de que os países pobres deveriam produzir o próprio alimento era "um anacronismo de eras passadas", ou seja, eles podiam comprar os produtos americanos, fartos e baratos. Assim, o mundo foi-se esquecendo de cuidar da agricultura. Um exemplo financeiro. Em 1980, o Banco Mundial desembolsou 7,7 bilhões de dólares para empréstimos agrícolas. Em 2004, foram apenas 2 bilhões.
 
Em paralelo, intensificou-se a urbanização. Neste ano, ocorreu a virada: pela primeira vez na história da humanidade há mais gente vivendo na cidade do que no campo. No campo, produz-se o que se come na cidade. Isso significa que há menos gente produzindo para mais gente – e, quando isso acontece, é preciso ter boa distribuição da comida. Nos Estados Unidos, as famílias rurais são 1% da população e alimentam 99%. "Talvez metade da fome global seja problema de infra-estrutura e distribuição", diz Josette Sheeran, que comanda o Programa Mundial de Alimentação da ONU, entidade que socorre vítimas da fome mundo afora. Recentemente, Sheeran ganhou as manchetes globais ao dizer, diante do Parlamento inglês, que a crise atual é um "tsunami silencioso". Uma forma de combatê-lo é melhorar a distribuição. A produção mundial é suficiente para alimentar todos. Só que não chega a todos. Nos Estados Unidos, a distribuição é ótima, mas o desperdício é um escândalo. Um estudo de 1995 descobriu que os americanos jogam fora 27% da comida disponível para consumo. São números assombrosos. Uma família de quatro pessoas põe 4,7 quilos de carne e peixe no lixo todo mês! Se um quarto do desperdício fosse recuperado, daria para alimentar 20 milhões de pessoas num dia! Se falta comida na Somália, onde a insegurança alimentar ameaça mais de 2 milhões de pessoas, e sobra comida nos EUA, onde 66% da população está acima do peso, o problema não está apenas na produção.
 
Não há receita pronta para superar a atual crise, mas duas medidas são inevitáveis. A primeira, de curto prazo, é despachar ajuda imediata aos milhões ameaçados pela fome, de modo a evitar uma crise humanitária de grandes proporções. A segunda é voltar a jogar dinheiro na agricultura. Num instituto de pesquisa no México, desenvolveu-se um milho capaz de resistir à seca da África e um trigo que sobrevive às pragas do sul da Ásia. Mas nunca apareceu o dinheiro para que as duas variedades chegassem às mãos dos pobres. Nas Filipinas, onde as mulheres têm protestado exibindo panelas vazias nas ruas, os cientistas identificaram catorze traços genéticos que podem salvar o arroz da praga do gafanhoto, mas não têm dinheiro para executar o trabalho. É uma negligência inadmissível. Intercâmbios são exeqüíveis há séculos: os europeus trouxeram para as Américas o trigo e o cavalo e, daqui, levaram a batata, por exemplo. Como hoje uma semente não consegue sair do México e chegar ao Togo?
 
A fome nunca se ausentou da vida humana, seja por fúria da natureza, que criou o fungo da batata que matou 1 milhão de irlandeses em meados do século XIX, seja como conseqüência da bestialidade humana. Na II Guerra Mundial, além da bomba atômica, a fome foi uma arma poderosa. No gueto de Varsóvia, onde cada judeu tinha direito a uma ração de menos de 200 calorias diárias – o recomendado é em torno de 2.500 –, a fome estava à espreita em cada esquina dos 100 quarteirões que abrigavam meio milhão de judeus. A fome também matou milhares de soviéticos no cerco nazista a Leningrado, que ficou nove meses sem receber comida. Contando-se a história da fome, conta-se a história da humanidade. A fome está na guerra. A fome está na política, na forma (sempre pública e barulhenta) da greve de fome. A fome está na religião, na forma (sempre reservada e silenciosa) do jejum, seja para judeus, católicos, muçulmanos ou hindus. A fome está no centro da tragédia humana, mas sempre fomos salvos pelo engenho científico do próprio homem. A ciência que fertilizou a terra, controlou pestes, reinventou sementes. A ciência terá, mais uma vez, de nos salvar.
Se tudo der certo, a sonda Phoenix vai tirar uma fotografia de sua aterrissagem sobre o solo de Marte. A imagem percorrerá 680 milhões de quilômetros e, em duas horas, chegará ao centro da Nasa, nos Estados Unidos. Durante a viagem da foto, morrerão 1 440 crianças de fome no mundo.